“Eu só quero viver em paz”.
Pastor diz não rejeitar seu passado e que quer ser livre do sistema religioso
Depois de vários anos sumido
do noticiário nacional, o pastor Caio Fábio D’Araújo Filho voltou às manchetes
no fim do ano passado. Réu na ação movida contra ele por conta do episódio
conhecido como Dossiê Caimã – conjunto de documentos falsos que, pouco antes da
eleição presidencial de 1998, acusava altas figuras do governo de ter contas
secretas naquele paraíso fiscal –, Caio foi condenado por uma juíza federal a
pouco mais de três anos de reclusão. Cabe recurso, e o pastor já avisou que vai
até às últimas instâncias. “A juíza quer aparecer”, ataca, sustentando a mesma
versão que conta desde o início do imbróglio: a de que foi envolvido
inocentemente numa conspiração política. Essa parte de seu passado, bem como
muitas outras, já não são conhecidas pelas novas gerações de crentes. Contudo,
os evangélicos mais maduros sabem que Caio foi a mais destacada liderança
evangélica já surgida no país, cuja visibilidade, catapultada por uma ação
ministerial intensa – como a criação da organização Visão Nacional de Evangelização,
a Vinde, e da Fábrica de Esperança, megaprojeto social que atendeu centenas de
milhares de carentes num conjunto de favelas do Rio –, marcou época entre os
anos 1970 e 90.
Hoje, Caio olha para esse
passado com serenidade. Ele diz que não repudia nada do que fez, mas que não
quer mais saber de ser a figura pública, aclamada e requisitada de outrora.
“Esse tempo acabou definitivamente para mim. Minha alma não tolera mais a
possibilidade dessa vida itinerante”, diz, em sua casa em Brasília. Cercado de
árvores, jardins e recantos, é dali que ele grava os programas que exibe pela
internet, parte importante das atividades do Caminho da Graça, ministério que
hoje capitaneia. Tida como uma igreja de perfil alternativo, o grupo reúne-se
em várias cidades brasileiras e, segundo Caio Fábio, procura restaurar o
sentido da comunhão cristã. “Ele é um movimento conduzido pela Palavra e pelo
Espírito Santo. Queremos que invada a massa, abranja tudo e se torne
incontrolável como o vento que sopra onde quer”, diz, com a retórica
privilegiada que conquistou milhões de admiradores e fez sucesso em mais de 100
livros publicados. De certas experiências do passado, ele não esconde a dor –
como a separação de sua primeira mulher, Alda Fernandes, com quem teve quatro
filhos, e a trágica morte de Lukkas, o terceiro deles. Contudo, embora
muito criticado e contestado ao longo desses anos todos, ele assegura, “diante
de Deus”, que não sente mágoa de ninguém. Aos 57 anos de idade, casado com
Adriana Ribeiro, Caio Fábio D’Araújo Filho se diz em paz. “Eu sou livre. Sou
nascido do Evangelho, nascido de Jesus. Hoje, sirvo ao Senhor e não preciso
perder o meu ser, a minha saúde, a minha paz, o meu convívio familiar. Isso é
graça de Deus para mim!”
CRISTIANISMO HOJE –
Recentemente, o senhor voltou ao noticiário com a notícia de sua condenação no
processo que investiga o episódio do Dossiê Caimã. Como ficou esse processo?
CAIO FÁBIO D’ARAÚJO FILHO – Meu advogado entrou
com recurso e eu ganhei. Agora, deve seguir para outra instância. Esse processo
é uma loucura inominável. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que
seria o maior prejudicado se a história fosse verdadeira, já veio a público me
isentar de qualquer culpa.
Se sua inocência é tão óbvia
como diz, por que um assunto praticamente esquecido pela opinião pública foi
trazido novamente à tona?
Por iniciativa de uma juíza
federal que gosta de aparecer. Como o episódio foi um fato histórico que
envolveu até a Presidência da República, ela quis ser a mulher que decretou a prisão
do indivíduo que seria o boi de piranha daquele negócio todo. Um grupo de
advogados amigos de São Paulo queria até entrar com uma representação contra
ela perante os conselhos de Magistratura, porque acharam que ela passou dos
limites. Mas o advogado que me representa nos autos não deixou.
A quem interessaria uma
condenação sua?
Ah, interessaria a muitos
religiosos. O próprio pessoal da imprensa que me ligou disse que isso é uma
coisa surreal, que aquela mulher é doida. Ninguém acredita em nada daquilo. Só
a Folha de São Paulo é que deu com um destaque maior por uma razão política que
eu não vou dizer aqui. E a TV Record [ligada à Igreja Universal do Reino de
Deus], por razões óbvias. Estou junto como réu ao lado de Paulo Maluf e
Lafayette Coutinho. No entanto, só eu fui condenado! Mas olha, se, por algum
motivo totalmente inexplicável, esse negócio chegar ao Superior Tribunal de
Justiça, será liquidado lá. E, se por alguma insanidade passar e for ao
Supremo, vai morrer na praia.
O senhor trabalha com a
hipótese de uma condenação definitiva?
Se, por alguma conjunção
cósmica totalmente irracional, eu for mesmo condenado a prestar serviço
comunitário ou fazer ação social, eu vou dar um grande “aleluia”, porque
estarei sendo condenado a ser eu mesmo, a fazer o que sempre fiz esses anos
todos, por minha total iniciativa.
O senhor concebeu e liderou um
dos maiores projetos de cunho social de iniciativa de evangélicos já feitos
neste país, a Fábrica da Esperança, considerado o maior do gênero na América Latina.
Com esta credencial, como o senhor avalia a relativamente pequena atuação da
Igreja brasileira na área social, ainda mais evidenciada quando consideramos as
altíssimas somas de dinheiro arrecadadas pelos grandes ministérios e
denominações?
Não existe nenhum grupo mais
ególatra dentre todos os movimentos religiosos planetários do que o movimento
evangélico. Isso por causa da semente dele – a semente é má, é de divisão. A
semente original, de protesto contra a Igreja Católica, transformou-se numa semente
de protesto existencial contra tudo. Essa divisão criou a ênfase no dogma
doutrinário. Isso divide, qualquer que seja o desencontro, em qualquer nível na
escala de valores. Falta tolerância naquilo que não tem significado para a
salvação, no que não altera o DNA do Evangelho. Esse tipo de tolerância no
olhar nunca existiu. O que se instituiu foi a prevalência do existencialismo
espiritual, e esse não lida com as categorias objetivas de valor. E logo o
chamado movimento protestante virou esse guarda-chuva evangélico, sob o qual
cabem todas as coisas. Quando é que pode haver unidade e serviço ao próximo se,
no meio evangélico a unção para nada serve senão para erigir egos? A unção do
Espírito Santo deve redundar no amor, na compaixão, na misericórdia, no serviço
– mas a “unção” que vemos aí só tem poder para criar lúciferes com purpurina na
cara, que atuam em palcos com luzes.
Em função deste e de vários
outros projetos e iniciativas, o senhor levantou muito mais recursos do que o
de diversos líderes de hoje, que estão até comprando aviões particulares.
À época, o senhor teve o seu?
Nunca tive avião ou
helicóptero. Faz parte da minha filosofia não adquirir nada. Nem esta casa onde
vivo eu comprei, ela me foi alugada a um valor simbólico por três senhoras
amigas. Eu nunca comprei coisa nenhuma, nunca acreditei em compra de nada. O
Caminho da Graça nunca vai comprar nada. Creio que imobilizar dinheiro do povo
de Deus com patrimônio físico é pecado. Quem diz que a nossa pátria está nos
céus e faz aquisições poderosas ou erige templos salomônicos está pecando
contra o espírito do Evangelho. Tudo o que eu construí e mantive era alugado.
Passei 25 anos declarando que não tinha o menor compromisso com a manutenção de
coisa alguma que virasse um fim em si mesmo. Quando você é dono de
propriedades, você acaba vivendo para fazer a manutenção de tudo e as coisas
perdem a finalidade.
E o senhor vive de quê?
Sempre vivi exclusivamente do
ministério. Todos os direitos autorais dos meus livros e a renda obtida com
nossas atividades no passado – TV, rádio, revista, editora – era voltada para a
atividade missionária, social, evangelizadora e de treinamento. Era tudo
reinvestido naquilo que fazíamos. E continua sendo assim hoje.
Quem o ouve falar percebe que
o senhor faz questão de traçar uma linha divisória entre o que é hoje e o que
fez, em especial em relação ao seu passado institucional, quando era uma figura
pública dentro e fora da Igreja. Há algo que o senhor repudia em seu passado?
Não. Eu nunca rechacei meu
passado. Só não faria de novo. Naquela época, contudo, foi necessário. Só de
uma coisa me arrependo no meu passado institucional: ter aceitado a imposição
de ter sido feito presidente da Associação Evangélica Brasileira [AEVB], pela
qual eu mesmo trabalhei muito para ver criada. Eu não queria a função, mas fui
eleito por aclamação. Praticamente me obrigaram a aceitar, porque a entidade
surgiu com o patrocínio da Vinde. Noventa por cento da AEVB estavam ligados aos
ministérios que eu dirigia. Eu não queria e nem precisava presidir a AEVB. Pelo
contrário – eu é que dei mídia para ela.