Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
Depois de anos de elogios ao cinismo,
de celebração da baixa esperteza e do rebaixamento da ética à categoria das
irrelevâncias, voltamos a falar de valores na dimensão do valor que de fato
têm.
A impressão que dá é que ministros do
Supremo Tribunal Federal estavam com o tema entalado na garganta, à espera do
melhor momento para desabafar.
Assim, a cada dia, a cada sessão de
julgamento do processo do mensalão, sucedem-se, em forma de votos, lições sobre
a distinção entre o certo e o errado.
Uma questão aparentemente simples,
cuja abordagem fica complicada em ambiente onde viceja com sucesso a cultura da
transgressão.
O que seria normal tornou-se
excepcional. A regra virou exceção. Quem reclama é mal intencionado ou
desavisado sobre a impossibilidade de o Brasil andar nos trilhos da lei.
Na sessão de segunda-feira, o decano
da Corte, Celso de Mello, deu uma aula magna sobre o direito de todo cidadão de
contar com "administradores íntegros, parlamentares probos e juízes
incorruptíveis".
Um voto em feitio manual de instrução
contra a venalidade e a delinquência como modos de operação do poder público.
Pontuou com clareza meridiana o mal
que a corrupção faz ao Estado de direito, resgatou o sentido do memorável
discurso de Marco Aurélio Mello quando assumiu a presidência do Tribunal
Superior Eleitoral em 2006.

